‘DILÚVIO’ DANÇA e FLUTUA SOBRE as INCERTEZAS com BELEZA IMPACTANTE – ES CRITA

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ES CRITA – ‘DILÚVIO’ DANÇA e FLUTUA SOBRE as INCERTEZAS com BELEZA IMPACTANTE

‘DILÚVIO’ a nova montagem de Gerald Thomas em cartaz no SESC Consolação abre com ele tocando tambor, corpos pendurados como num açougue prontos para serem abatidos, que remete a carnificina, uma mulher suspensa por cabos que lembra uma marionete e uma lua também suspensa.

A falta de gravidade da lua esta presente nos corpos das bailarinas que flutuam, dançam e desenvolvem coreografias belíssimas dentro de um espaço restrito, já que seus corpos ficam limitados pelos cabos que as mantêm presas,  esses fios são como linhas do que ainda resta de pulsão de vida e erotismo  dentro de um mundo cada vez mais assustador, apocalíptico.

E essas mulheres/musas podem ser vistas também como satélites de um criador terreno. Os cabos dão a impressão de que estão presas, mas elas escapam dessa imagem de prisioneiras através da própria criação. Dançando transmudam essa primeira impressão e em vez de prisão podemos sentir que os cabos estabelecem um vínculo e ligação entre o criador e criaturas que se fecundam, vínculo que vai além, se desdobra no espetáculo e envolve o todo, inclusive a parte técnica que os manipulam.

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Esses cabos são um dos aspectos que deixa explicitada a mentira e o truque do teatro, como a cena da luta, assumidamente fake. Nesta cena que revela técnicas cinematográficas, de como são feitos, por exemplo, os saltos e vôos de super heróis e DILÚVIO consegue extrair dessa técnica  graça e beleza.

O diretor, que é também autor da peça, brinca com a repetição e com este recurso, faz com que as cenas se aproximem do absurdo contemporâneo onde milhares de posts são replicados nas redes infinitamente, posts que não dizem nada, mas tenta parecer que diz e quando diz muitas vezes não conseguem sensibilizar.

As repetições são exploradas a exaustão até o esgotamento, como uma ideia recorrente. e as imagens poéticas surgem dos entulhos. A poesia em DILÚVIO se ergue no meio do lixo produzido pela humanidade e paira sobre o planeta que, mesmo arrasado, continua sendo bombardeado constantemente de todas as formas, inclusive pela enchurrada de informações que recusam a admitir a enrascada em que estamos metidos.

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O que é dito e muitas vezes repetidos, inclusive em outras línguas, ressalta as dificuldades de comunicação dos tempos atuais e dá pistas, ao se recusar a traduzir, de que a peça não pretende se explicar, que ela não passa pela compreensão objetiva, mas pela subjetividade e sensibilidade. O diretor assume a repetição como linguagem cênica onde a poesia tem que se virar, cavar o seu próprio espaço dentro dos sons e ruídos, como é na realidade. E daí o diretor mergulha o público em uma profusão de imagens sínteses poderosas, deslumbrantes, em que o som e a iluminação, sempre magníficos nos seus espetáculos, são vitais para criar a ambiência para as cenas/quadros em movimentos que desafiam a duração.  DILÚVIO capta o incomodo atual e apresenta imagens que impactam o olhar no aqui agora para que ele volte a ver, a sentir, a perceber nos corpos os efeitos da realidade brutal.

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E se há no inconsciente coletivo a percepção do fim, a peça recusa ser porta-voz de verdades, não há em cena um profeta apocalíptico pregando a sua verdade absoluta como em uma praça pública. DILÚVIO assume a incerteza e a instabilidade da Terra e faz a poesia fluir mesmo nos atritos provocados por tantas  des-conexões.

Os fake news que precisaram se utilizar do formato jornalístico como estratégia para ganhar certa credibilidade temporária e se apropriou, com crachá de imprensa, daquilo que é aceito como natureza da ficção para construir narrativas e penetrar no real para interferir nele, pairam como um dos temas em DILÚVIO, embora assuma e mostre o fake do próprio teatro, desvia dele pra não nos deixar acomodados no território da metalinguagem, que já não é suficiente.

Põe corpos flutuando na desterritorialização e atinge a poesia no chão e nas alturas. Os corpos às vezes sem chão dançam na instabilidade da vida que é a mesma que a planetária. As bailarinas/atrizes ficam suspensas, de lado e até de ponta cabeça e assim DILUVIO dá asas a imagenEMação com corpos que dizem mais do que as falas que ali são ditas.

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As bailarinas ora flutuam como seres sobreviventes sobre a terra ameaçada ora como anjos que voam e pairam pra testemunhar a impotência da raça humana diante do inevitável conforme constatado por inúmeros estudos e segundo as previsões mais pessimistas.

A ótima atriz Maria de Lima conseguiu arrancar minha gargalhada sonora, daquelas que não se consegue conter mesmo quando se tenta. É uma cena que vem na boca de cena e diz coisas incompreensíveis e mesmo assim conseguiu se comunicar em outro nível.  Senti que a sua travesti traz nos seus gestos e falas desconexas ‘Esperando Godot’, mais precisamente o personagem Lucky, mas em DILÚVIO não há estado de espera, pois não há futuro, o fim já esta nos hojes. A travesti incorpora a desorientação causada por tantas informações verdadeiras ou falsas que não conseguimos mais processar e sufocam a poesia da vida.

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Depois da peça, vivi essa sensação de ser invadido pelo dilúvio. Moro longe do centro de São Paulo, na periferia de Mauá, cidade de operários, uma filial do Nordeste, que pertence ao Grande ABC. Peguei a Arca de Noé, o trem, desci na minha estação. Sem ônibus, voltei a pé pra casa, caminhei de madrugada em uma região completamente deserta durante mais de uma 1 hora. De guarda chuva sob a chuva com um vento forte, lembrei de uma cena da peça e senti no próprio corpo o dilúvio para além de explicações que o cérebro tenta às vezes inutilmente encontrar. Olhando as paisagens que atravessava e os silêncios das pessoas dentro dos automóveis indo e vindo e eu e eu e eu seguia em frente vulnerável pelas ruas, sentido o apocalipse do vazio.

E a pergunta que se colocou não foi se há vida pós-morte, mas como é possível, como um sobrevivente, continuar vivo antes da morte!

Vagner Luís Alberto

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Autor e Diretor: Gerald Thomas.
Coreografia Aérea e Direção: Lisa Giobbi.
Coreógrafa Associada: Julia Wilkins.
Elenco: Ana Gabi, Beatrice Sayd, Isabella Lemos, Maria de Lima.
Performance aérea: Lisa Giobbi, Julia Wilkins.
Fotos: Roberto Setton

Luz: Wagner Pinto

Duração: aprox.  120 min

Em Cartaz: Sesc Consolação até 17/12/2017

 

 

 

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