ES CRITA – VELHO CHICO – Flui com Arte dentro da Tv

VELHO CHICO – CONQUISTA A SUA AUTONOMIA DENTRO DA TV COM ARTE

Quando VELHO CHICO a novela da TV Globo que ainda esta no ar, escrevi um texto cujo o titulo era MERDA – AS NOVELAS ESTÃO NO AR, em que falava da politica que estava entrando com tudo na vida de todos, inclusive daqueles que vivem alienados dela imersos nas novelas televisivas, e o titulo MERDA dentro do contexto soava ambíguo, pois se para o artistas também é um jeito de desejar boa sorte antes de entrarem em cena, para a realidade daquele momento merda não era uma forma de desejar boa sorte, jogada nos ventiladores das mídias a merda estava prestes a espirrar nas nossas caras como espirrou.

Tarcísio Meira na pele do poderoso coronel Jacinto, que comanda a cidade de Grotas do São Francisco (Foto: Caiuá Franco/ Globo)

Vi os primeiros capítulos de VELHO CHICO e Tarcísio Meira no primeiro e único em que participou esteve magnifico. Na primeira fase, que durou aproximadamente uma semana teve outras atuações muito boas como de Fabíola Nascimento, Selma Egrei, Julio Machado, Chico Diaz, o falecido Umberto Magnani  mas a novela política me afastou de VELHO CHICO, a farsa real com inúmeros protagonistas roubou a cena. O seu desenrolar  revelou os bastidores dos podres poderes, a política se tornou o assunto mais quente do momento com revelações bombásticas e a novela foi ofuscada pela sucessão de escândalos, pela histeria coletiva, pelas inúmeras e bem vindas manifestações e também pelo boicote de muitos a TV Globo, eu mesmo perdi o interesse em acompanhar a narrativa dos seus noticiários tendenciosos.

E os atores mesmo dentro de uma novela muito boa ficaram em uma situação bastante delicada diante dos acontecimentos externos em que manifestantes chamavam a empresa em que trabalhavam de Glopista, e principalmente o diretor Luís Fernando Carvalho que fazia e faz cinema na tv e teve que defender o seu ponto de vista diante da queda da audiência e da cobrança interna, mas apesar das pressões, tem conseguido manter a sua autonomia e da arte dentro de um veículo de massas que tem as suas regras, autocensura, compromisso com o Ibope e anunciantes. Não deve ser fácil.

Umberto Magnani será o Padre Romão. Na cidade de Grotas de São Francisco, ele será querido e vai até transitar entre famílias rivais  (Foto: Caiuá Franco/ Globo)

A novela foi contra a corrente das tendências atuais e desacelerou o ritmo e produz uma fotografia que tem uma beleza deslumbrante e que não estão ali para distrair, mas pra descongestionar os nossos olhares. As paisagens belas são indiferentes aos dramas humanos que se desenrola e que atualmente estão cada vez mais tenso e intenso. VELHO CHICO  tem uma luz e tomadas belíssimas, cortes precisos e trilha-sonora certeira, onde podemos ouvir um Tom Zé, Ná Ozetti. Bárbara Eugênia, e até Geraldo Vandré. O diretor, que é excelente, consegue extrai dos atores interpretações bastante humanas que transbordam emoção, e ali diante do rio São Francisco a tragédia paira no ar, parece que esta sempre presente. como se estivesse a espreita, oculta como a câmera que assisti e testemunha tudo.São poucos personagens e a trama é concentrada em apenas duas famílias inimigas e esse é um dos méritos da novela, não dispersar o publico com muitos núcleos, é como se fosse uma peça de teatro alongada em capítulos e dessa forma permite que todos os personagens possam evoluir sem pressa e dá a eles o tempo necessário pra que as cenas aconteçam. A cadência lenta permite momentos de solidão, coisa rara na tv, nesses momentos de ‘só’ eles solam e os personagens revelam os seus pensamentos secretos.

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Fazia muito tempo que não se via tanta densidade e interpretações boas, eu particularmente adoro atores, e o diretor que faz arte dentro da maior emissora de tv brasileira, apesar das críticas, se recusou a abrir mão do seu projeto artístico e a mudar o ritmo e o curso de VELHO CHICO. A cada capitulo tem provado que é possível driblar  os limites impostos pelo formato ou pelo veículo,  e elevou o desgastado formato das telenovelas a um nível de excelência que nas mãos de artistas como ele e toda a equipe foi transformada em obra de arte.

Ontem segunda feira foi revelado a origem paterna de Miguel (Gabriel Leone), filho de Maria Tereza (Camila Pitanga) e. Santo (Domingos Montagner) por pouco a relação incestuosa dos irmãos não foi consumada, com cortes precisos, cenas simultâneas e clímax sobre clímax foi de arrepiar.

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Há alguns dias atrás o coronel Afrânio (Antonio Fagundes) questionava a existência de Deus em uma cena razoavelmente longa e muito bem feita, em outra o racismo veio a tona quando apareceu a namorada negra que é francesa de Miguel, seu neto, filho do seu maior inimigo e que até ontem o filho/neto ignorava. O neto recentemente questionou a origem da fortuna do avó, e chegou a afirmar que a sua riqueza foi conquistada as custas da fome do povo, exploração do trabalho e roubo das terras do indígenas.

O enredo é forte, na casa e propriedade grandes se construíram laços afetivos bastante complexos. O coronel rompeu no passado os laços com o seu único filho Martim (Lee Taylor) que esta de volta a cidade no momento delicado em  que a relação com o neto querido, seu herdeiro, esta prestes a se romper. A politica antiga coronelista agoniza diante do sopro renovador do conhecimento trazido pelo jovem mas que o velho recusa.

Os conflitos políticos, ideológicos, de terra e trabalho são conhecidos de todos os moradores da cidade, mas os familiares ficam dentro da privacidade das quatro paredes, a justiça social mesmo se feita não eliminaria o existencial,  ambos, na novela, são atravessados  um pelo outro num rito  de purgação no trágico. A tradição da posses, a herança do nome e da propriedade, as ações do passado e os conflitos familiares são fardos que se encontram com as questões sociais, o desfecho do privado reverbera no coletivo e vice e versa.

Os telespectadores que ‘de fora’ assisti a tragédia, a ele é dado o direito de tudo ver, ele vive por um momento a totalidade  através da ficção e por um breve momento pode se aproximar daquele conceito de Deus ou do divino que tudo sabe e vê, e a partir dessa posição privilegiada com VELHO CHICO pode sair da banalidade diária e mergulhar de volta no eterno retorno do mistério humano.

Vagner Luís Alberto

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Elenco: Antonio Fagundes, Camila Pitanga, Domingos Montagner, Selma Egrei, Cristiane Torloni, Irandhir Santos, Lee Taylor, Dira Paes, Marcelo Serrado, Gabriel Leone, Suely Bispo, Marcos Palmeira, Lucas Veloso. Gesio Amadeo, Marcélia Cartaxo e outros

link texto MERDA – AS NOVELAS ESTÃO NO AR

https://escritosdevagner.wordpress.com/2016/03/23/2463/

 

 

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