ES CRITA ‘NA SELVA DAs CIDADEs’REALIDADE (CAPITAL) E FICÇÃO (ARTE) EM CONFRONTO

“a vida é um caos que estranhamente ou misteriosamente se organiza”

Vagner L.Alberto

ES CRITA

‘NA SELVA DAs CIDADEs A REALIDADE DO (CAPITAL) SEDUZ A FICÇÃO (ARTE) E CHAMA PARA UMA LUTA’

A Mundana Companhia se arrisca em 3 hs com NA SELVA DAS CIDADES  e mergulha o público no caos desde o início com o frenesi de todos os celulares ligados em uma montagem potente. Na peça, que é dividida em 11 Quadros,  a realidade do Capital entra na Ficção/Arte, simbolizada por livros e no caso aqui pelo o teatro. Ela entra, como na vida, de forma abrupta, inesperadamente como um acidente ou uma catástrofe e tira da tranqüilidade um vendedor de livros de um sebo.

NA SELVA DAS CIDADES

Sr. C.Shlink (Auty Porto) é um rico negociante de madeiras que entra na vida de George Garga (Lee Taylor), o vendedor de livros. O chinês tem informações sobre a vida pessoal dele e que comprar a sua opinião. Atônito com a proposta ele recusa várias vezes vendê-la. Então, do nada, o chinês, que esta em busca de um oponente a sua altura, propõe a troca de papéis, uma alternância de poder e lhe oferece todo o seu negócio, mas como contrapartida quer lutar com Garga, ele diz sim, aceita. E esse sim é um sim para o confronto sem tréguas que será travado entre eles durante todos os 11 quadros. E ao aceitar o desafio sem nenhum motivo aparente, Garga ganha poder financeiro, mas verá mais adiante a sua família desintegrar, a casa cair, no meio da mobília nova, símbolo da sua ascensão social.

O texto é do jovem Brecht, foi escrito em meados dos anos 20 quando tinha 25 anos e me parece que o autor se depara com as possibilidades do teAt(r)o político, que ele irá trilhar durante toda sua vida e com os conflitos que se instauram nele internamente: a urgência da realidade em luta com a ficção da poesia do teatro, que muitas vezes pode ficar alienada dela, mas o autor encara e coloca em cena como dois fortes oponentes lutando e revela todos os desdobramentos que surgem a partir dos atritos dessa intensa relação, como faz agora a Mundana Cia com Na Selva das Cidades.

E a luta também é a luta pra tirar o teAt(r)o da zona de inofensiva da ficção que muitos praticam e o deixam como mero entretenimento digestivo,  mas nessa peça de juventude onde a realidade do capital e da política, que na peça não são apenas coadjuvantes, lutam com a arte de igual pra igual. Ao mesmo tempo em que insere o teatro no real e o mantêm vivo na vida, o autor reafirma e coroa o seu poder legítimo e vital dentro da sociedade ilimitada da criação.

NA SELVA DAS CIDADES. 2

São 3 horas de duração de muita intensidade,  o tempo voa com a encenação que é  dinâmica, viva, inventiva, onde os atores nos surpreendem o tempo todo,  se arriscam, tanto nas marcações que não há, elas são improvisadas a cada dia a partir de um roteiro pré-estabelecido , como na forma inventiva como ocupam os espaços e de como exploram as possibilidades do gesto, da fala e do corpo.

Eles se jogam a todo instante  e instauram o efêmero do aqui agora em sucessivas dissoluções, atuam sempre como se fosse a primeira vez, como se fosse uma estréia diária com toda a instabilidade do que pode acontecer ou não, instabilidade que é a mesma da vida e daí a sua aproximação com o real. Sentimos muitas vezes a mesma perplexidade dos personagens  que não sabem o sentido daquela luta e as incertezas dos rumos que as suas vidas irão tomar conforme evolui  o combate. E eles, os atUadores, não temem o exagero, o grotesco para atingir o lirismo, o humor, a poesia, a verdade da cena. A todo o instante buscam quebrar com os padrões gestuais, sem esquecer que cada um deles é um fio de Ariadne dentro da narrativa para o público e que, como eu fiz, poderá acompanhar a peça não só através do que é dito, mas também através da gestualidade que nos ajuda a compreender o que se passa.

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A montagem vai revelando que a realidade do Capital-Política entra na vida de todos de uma forma ou de outra e dita às regras, apesar de você, apesar de mim e invade a vida de qualquer um, até mesmo de um artista. E mesmo que ele queira ficar alheio, imerso na sua criação, não esta a salvo, como acontece com o Garga e como esta acontecendo agora com nós todos no Brasil. Garga, que veio do campo/sertão com a sua família para a selva urbana da cidade, fica frente a frente com a realidade cruel que se impõe com o Sr. C.Shlink que chega de repente na sua vida e o tira da zona de conforto como a peça faz conosco, nos provoca enquanto ‘desCabeça’ Garga.

NA SELVA DAS CIDADES. 8

A aceitação de Garga do jogo-luta vai desencadear novos comportamentos nos personagens, jogá-los em novas ações, mesmo contra as suas vontades, em que terão que lutar pelas próprias sobrevivências. As viradas, as pancadas emocionais de cada embate afetam os seus corpos e reverberam tanto nas vozes como nos gestos dos atores e na sensibilidade do público.

A montagem é de uma riqueza criativa exuberante como a iluminação que instaura como os atores, os instantes fugidios e desperta as nossas percepções. Como a cenografia que é simples, a madeira predomina, mas é magnífica, deixa todos os espaços em volta vazados, abertos como se abrisse as nossas cabeças e coloca o público dentro da cena, permite e incentiva que ele se desloque durante o transcorrer dos quadros. As cenas acontecem em todos os lados/cantos e alteram as nossas perspectivas e pontos de vista.

NA SELVA DAS CIDADES. 4

Com um elenco talentoso e delicioso de ver, mesmo com ótimos atores como protagonistas masculinos, as atrizes se destacam de forma maravilhosa com as três mulheres a beira do abismo: Luah Guimarães, Luiza Lemmertz e Carol Brada, elas constroem três mulheres tão distintas com bastante humor, muitas nuances e de forma apaixonada.  Os parceiros Guilherme Calzavara e Mariano Mattos dão e são um show de energia e humor, inclusive fazem um show em que cantam todos os ritmos. Aury Porto e Lee Taylor vem de duas escolas de teatro fortes (Oficina/Zé Celso e CPT/Antunes Filho) e tem embates maravilhosos onde nenhum dos dois atores perdem. O elenco afinado nas conexões internas e externas é completado com João Bresser e Vinicius Meloni. Cibele Forjaz atua na direção de forma madura, segura, criativa onde na há sentimentalismo mas sentimento, sentimentos que estão  sempre ‘em obras’ nos corações em mentes de quem esta vivo no aqui agora do teAto.

A Cia Mundana não fica indiferente, encara a Selva das Cidades e o aparente não sentido da luta dos personagens que é a mesma dos criadores quando entram em ação no teatro, se arrisca com essa nova montagem e no dia a dia de cada dia vai se reinventado.

Vagner Luís Alberto

Ontem (s) e Hoje

NA SELVA DAS CIDADES. 7

OS QUE LUTAM
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.

Bertolt Brecht

SELVA NAS CIDADES

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